domingo, 27 de novembro de 2011

Personificando o Invisível

Uma exposição aberta
Alguns quadros à mostra
O vernissage inaugura
A inédita moldura
De pinturas inexistentes
De criaturas sobreviventes
Ao modo de sua sinecura
Contrastes e cores invisíveis
Tela a óleo gravuras...
Ilustrações perceptíveis
Aos olhos por debaixo da armadura
Seu brilho liberta-se pela sala escura
E os críticos relembram
Interagem com suas máscaras
Elas caem ao chão
Revelam-se faces nua
Refletem no quadro em branco
Perdem sua postura
Assustam-se com o relâmpago
Apreciam seu mundo microscópio
Deixando-se observar na imensidão do caleidoscópio
Mundos destroçados
Reconstroem-se ganhando vida nos quadros
Os pintores, todos apostos
Curvam-se diante da grandeza
Da mais fascinante das obras
Emanando a projeção de sombras e de luz
Epitáfio sem sentido que lhes conduz
Aos corredores externos da sala escura
E todas suas pinturas e texturas
Experimentadas de forma única
Por cada um que perdeu sua máscara
Ao acaso, ao propósito
Ou ao simples desejo lógico
As telas tem sua dimensão
E na textura
E espessura
Apresentam toda sua precisão
E os estilos em conformação
Detalham momentos ímpares
Na existência de vidas íngremes
E por vezes sem sentido
E os tons da tela revelam o triste coagido
Que os sonhadores se refugiam
As vezes agonizam
Mas ainda há uma pintura
A última aquarela
Benerofonte contra Quiméra
Ou a tela ilustrando os ares da primavera
O armagedom poético
No traçado do pintor cego
Se expressa por partes imprecisas
Por inspirações indefinidas
Mas que podem ser compreendidas
Por quem souber bem observar
Por quem souber esperar...

sábado, 26 de novembro de 2011

Geometría

Vultuosas aspirações circulam por vias tortas
Linhas errantes e sem definição
Mas que de algum modo possui suas formas
Sem atração
Sem emoção
Panteônicas...
Psicodélicas...
Porém livres e vívidas
A alma do poeta percebe
Mas os olhos da torre
As mantêm sob vigilância
As linhas se redobram em círculos
Espalham-se sem regência
Contudo, convergem sem relutância
Entrelaçam-se em forma de redes
Interligado os mais remotos seres
Recobrindo as fendas
Extensas...
Feridas abertas
No planetário de vãs filosofias
Que se confundem com verdades absolutas
Linhas obscuras entre rumos incertos
Cruzando por caminhos abertos
Os solitários buscam a cada dia
Um motivo para repor sua alegria
E os céticos invalidam suas fantasias
Mesmo que esperem o mesmo
Preferem imbecilizar o sonho
E amar o pesadelo
Preferem rir das linhas certas
E acreditar nas linhas infinitas
Escolhem a morte
Mesmo quando a vida é mais segura
Abusam da sorte...
Sucumbem á doença sem cura
Amargam em noites etílicas
Recorrem em suas frustrações
E da desgraça tentam extrair lições
Eles ficam
As linhas partem
Continuam...
Reverberam...
Uma após a outra
Seguem seu rumo

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ilha Flutuante

Navegando sobre o mar de névoa
A caravela dourada afundou
Um paredão imenso partiu-lhe a proa
E do náufrago uma só criatura restou
Em sua visão turva a terra flutuava
Pairava sobre a humanidade
Os portões mágicos revelavam a mais alta morada
O vento descobria a mais pura ingenuidade
O Maremoto de indecisão paralizava o mais breve movimento
Entre a escuridão das nuvens
A névoa espessa escondia o firmamento
Sobre seus pés, vulcões e fuligens
Arrancavam de suas entranhas
Falsas esperanças
Ela não podia ver
Nem saber
Mas lá de baixo
Todos os mortais sabiam que ela existia
Estava pronta para saltar
Do alto da ilha e dos rochedos
E lá nos confins de algum lugar
Alguém a esperava derrotando seus medos
A imensidão do paredão
E os restos da embarcação
Guardavam seus segredos
Do alto a queda
E no chão
Os pedaços da sela
E os cacos da prisão

Chaves Perdidas

O que você vê ao olhar por de baixo da porta?
A imagem que remonta sua retina
Não é de uma pessoa morta
Tampouco de um sábio expondo sua doutrina
A luz incandescente
O barulho da corrente
E as chaves que caem ao chão
Eram aquelas que abriríam o último grilhão
Veja ainda por debaixo desta porta
percorrendo os corredores escuros
avistam-se prisioneiros obtusos
desgraçados a sorte alguma
na lama da insignificância
As correntes arrastam, perdem-se na bruma
A imagem da derrota faz sua edificância

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Monossilábico

Entre o silêncio de cada palavra
Há um universo não descrito
Desmedido, incompreendido
Feito a águia a ser libertada
Voar ao seu encontro
Rompendo as amarras
Preso em suas garras
A promessa dos tempos
O ópio das madrugadas
O arquétipo dos venenos
Surgindo pelas encruzilhadas
As criaturas do lago se faziam presentes
E na tônica dos amantes
Nenhuma regra estipulada
Insanos de uma próxima parada
Entorpecidos na tempestade em disparada
Nenhuma palavra
Não era preciso dizer nada
Do alto os olhos de rapina
Observavam a cada esquina
No meio da multidão
Andando feito um cão
E todas as juras perdidas
Indigentes e anônimas
Pairavam sobre a consciência
Mas naquele momento
Não havia obediência
E nenhum simples argumento
À sombra da velha árvore
Retorcida até o chão
Estava a casa do ciclope
Repleta da mais pura solidão
As palavras não tinham materialidade
Nem a ave de rapina perdera sua vitalidade
Mas a criatura havia se retirado
Para longe onde havia um navio destroçado
No lugar em que tudo se havia iniciado
Ali jaziam todas as apatias
As glorias e as lembranças
De tudo que não poderia ter sido
E das coisas que poderiam ter visto
Era o fim para o reinício
Era assim que poderia ter acontecido

sábado, 30 de julho de 2011

Espelho sem Reflexo

O caos de cada segundo
se vai no primeiro gole de cerveja
O último devaneio se acaba
no sono mais profundo

Todo hábito antiquado
é um ato desesperado
Mesmo que alguns não entendam
é um rumo sem rumo
evitando que se percam

É a busca da ordem
e da lógica do universo
é a espera que os ânimos se acomodem
num campo evasivo e disperso

Ao cair da noite
em cada beco escuro
há um bêbado sempre afoite
com a cara entre a rua e o muro

Ao final sempre a mesma história
Foge-se da rotina
Mas sempre se acha aí alguma gloria
É como se inalar cocaína
ao abrir a caixa de pandora

E tu, ao veres tudo isso, sentirá nojo
Como a negação e o firmamento
Junto com tudo que desta a cada momento
Cubra seu rosto de vergonha
mas deixe que vejam todo resto
No íntimo nefasto da insônia
há um barqueiro sempre por perto
Ele fará a travessia
e pode ser sem volta
Não há cura para sua afasia
Nem remédio para sua revolta

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Mão e a Pena

A mão fina que conduz a leve pena,
Livre no papel, reproduzindo tão breve cena
Trajetória circular e mutante
Captando vidas desgraçadas que se vão a cada instante
Descrevendo homens e mundos perdidos
Recriando a existência de seres feridos
A tinta abandona o tinteiro
Deslizando sobre o papel seco
O vento cortante derruba a neve do pinheiro
O andarilho na escuridão vaga sem endereço
A pena por de trás dos montes desce ao vale
A escritora, atenta, observa a floresta
Os rios correm até ela feito vinho no cálice
Da janela vê-se indescritível; porém modesta
A pena e o tinteiro dão vida ao seu comando
Destroçam os devaneios descartáveis; aqueles que detesta
Ainda há perfeição no simples toque, mas ela está chorando
Não encontra as palavras para sua jornada
Claustrofóbica, pálida e com ferida exposta
Suas armas são o verso e a espada
Afiada, leve igual à pena, poderosa igual suas palavras
Bela poetisa desmorona seus lamentos
Levantam-se todos os seus tormentos
Mas a mão fina ainda conduz a leve pena
Aos olhos agudos do observador
Ela reproduz cada detalhe de tão rara cena
Escreve sobre seu universo fantástico
Intimista, tímida; algoz e voraz
De espírito livre e sádico
Uma fera noturna que de tudo é capaz
Palavras agudas unem-se com o papel através da tinta
São fragmentos da criatura mágica
Proferem vivas aos egressos das cinzas
As palavras são flechas rumo ao peito do guerreiro desatento
Rasga sua carne em um simples movimento
A mão fina conduzindo a leve pena
Cada frase é um ato desta tão breve cena