sábado, 30 de julho de 2011

Espelho sem Reflexo

O caos de cada segundo
se vai no primeiro gole de cerveja
O último devaneio se acaba
no sono mais profundo

Todo hábito antiquado
é um ato desesperado
Mesmo que alguns não entendam
é um rumo sem rumo
evitando que se percam

É a busca da ordem
e da lógica do universo
é a espera que os ânimos se acomodem
num campo evasivo e disperso

Ao cair da noite
em cada beco escuro
há um bêbado sempre afoite
com a cara entre a rua e o muro

Ao final sempre a mesma história
Foge-se da rotina
Mas sempre se acha aí alguma gloria
É como se inalar cocaína
ao abrir a caixa de pandora

E tu, ao veres tudo isso, sentirá nojo
Como a negação e o firmamento
Junto com tudo que desta a cada momento
Cubra seu rosto de vergonha
mas deixe que vejam todo resto
No íntimo nefasto da insônia
há um barqueiro sempre por perto
Ele fará a travessia
e pode ser sem volta
Não há cura para sua afasia
Nem remédio para sua revolta

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Mão e a Pena

A mão fina que conduz a leve pena,
Livre no papel, reproduzindo tão breve cena
Trajetória circular e mutante
Captando vidas desgraçadas que se vão a cada instante
Descrevendo homens e mundos perdidos
Recriando a existência de seres feridos
A tinta abandona o tinteiro
Deslizando sobre o papel seco
O vento cortante derruba a neve do pinheiro
O andarilho na escuridão vaga sem endereço
A pena por de trás dos montes desce ao vale
A escritora, atenta, observa a floresta
Os rios correm até ela feito vinho no cálice
Da janela vê-se indescritível; porém modesta
A pena e o tinteiro dão vida ao seu comando
Destroçam os devaneios descartáveis; aqueles que detesta
Ainda há perfeição no simples toque, mas ela está chorando
Não encontra as palavras para sua jornada
Claustrofóbica, pálida e com ferida exposta
Suas armas são o verso e a espada
Afiada, leve igual à pena, poderosa igual suas palavras
Bela poetisa desmorona seus lamentos
Levantam-se todos os seus tormentos
Mas a mão fina ainda conduz a leve pena
Aos olhos agudos do observador
Ela reproduz cada detalhe de tão rara cena
Escreve sobre seu universo fantástico
Intimista, tímida; algoz e voraz
De espírito livre e sádico
Uma fera noturna que de tudo é capaz
Palavras agudas unem-se com o papel através da tinta
São fragmentos da criatura mágica
Proferem vivas aos egressos das cinzas
As palavras são flechas rumo ao peito do guerreiro desatento
Rasga sua carne em um simples movimento
A mão fina conduzindo a leve pena
Cada frase é um ato desta tão breve cena

Prisão Invisível



Cidades, lugares
Artifício humano
Paredes e grades
Separando mundos
Pareço sem rumo
Mas tenho um lar
Ando em silêncio
porque quero pensar
Muitos procuram
a imagem perfeita
Viciados oferecem
Você aceita
Noites e noites
madrugadas sem fim...
A realidade é um açoite
dê uma cerveja pra mim
Fujo perplexo
outro dia se aproxima
Brinquedo esquecido
no jardim da rotina
Somos prisioneiros...
acorrentados e esquecidos,
Somos herdeiros
de sonhos falidos!


Abril de 1999

A Poeira

Derrubem as pedras que fazem os homens
Destruam os pilares que sustentam os totens
De nada vale essa passagem para outra dimensão
De nada, o nada é o campanário de onde se avista a desilusão
Se não se vê de tão distante o mar
Há um olho de vidro e outro de mármore, prontos para flertar
Vai se entalhando as formas como lápides de um jazigo
As pedras que rolam são presságios, todos mórbidos, de uma noite em estado etílico
Desmoronam os primeiros que ousam passar os vales da bela poetisa
Caem os que se aproximam de seus longos cabelos e de sua escrita poderosa
Movem-se pelas sombras grandes sonhadores
Esperando descrever sua volúpia e revelar suas cores
Pobres tolos, não conhecem a tênue e efêmera criatura
Da rocha sai o tronco e da terra o ventre
Aos mortais que perdem suas pedras e, desabam a seus pés, resta ser poeira para sempre
Mas ali existem sobreviventes
Em meio aos escombros
Alguns ficam em pé e tentam ver o que somos
Não entendem de onde caíram...